Não é muito frequente nos depararmos com um sambista paulistano querendo explicar o sadomasoquismo, o cio, e ao mesmo tempo fazendo ode à mestres como Adoniran Barbosa a Itamar Assumpção. Certo? Pois aqui estão dois: Kiko Dinucci e Douglas Germano, os homens que formam o Duo Moviola. Separados, eles possuem bons currículos como compositores e várias participações em projetos musicais nascidos em São Paulo. Kiko também é artista plástico. Douglas também é expert em trilhas sonoras para o teatro. Da recente parceria, surge um álbum cheio de subjetividade e poesia, intitulado O Retrato do Artista Quando Pede, lançado no início deste ano.
O que há de melhor no trabalho são as pitadas de irreverência. Caprichando em assuntos e letras, o Duo Moviola apresenta músicas bem humoradas, infiltradas em assuntos tão diversos que aparentam serem combinados. Logo de início, em Déjà vu, eles mostram uma das intenções mais marcantes do álbum: o uso e abuso da complexa e cruel língua portuguesa. Depois da sopa de palavrinhas, segue a bela Por Favor, onde começam a tocar na tecla São Paulo. A alucinação por uma diva da sétima arte vira uma espécie de canção de ninar em Cine Star. As sílabas passam a servir de brinquedo: “Cheiro de pi... Poca no ar”.
Quando Cio começa a tocar, nossos ouvidos ganham estrofes preciosas. O desejo sexual é delicadamente descrito: “Língua lambeu lábio”; “Espelho de mosaico, ela afasta o cabelo pra se olhar”; “Unha no tapete, arranhando o carinho que não há”. O sexo também aparece cômico em Floradas de Amor, a melhor canção do disco. Aqui, o ditado de que “em mulher não se bate nem com uma flor” é colocado de frente ao sadomasoquismo, gerando pérolas como: “Um tapa a mais pra alimentar o teu fetiche”; “Açoite para o teu prazer / Kung Fu, judô / E sangue pra compadecer / Surra de amor / Hoje se encontra em qualquer anal / Um Bruce Lee, Davi Cardoso, um pitbull, Alexandre Frota, já é normal”.
Uma das músicas mais divertidas é Mal de Percussion, onde a técnica dos Barbatuques, que utilizam partes do corpo como instrumento musical, é vista como um incontrolável TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo). Destaque também para a história de uma personagem bastante conhecida das lendas urbanas: A Loira do Banheiro. Também não há como esquecer das duas faixas que fecham o disco: a inconveniente Caderninho de Vergonhas e a impagável faixa título, que é levada à la marchinha de carnaval. Deu para perceber que o trabalho é bom, não é?
Ouça algumas faixas do disco no MySpace e fique por dentro das novidades do Duo Moviola acessando o blog oficial.
Comentários
por Monicky Mel Araújo em 15/04/2009 às 08:37:53
Edckson, o interessante de Duo Moviola, é sem dúvia a brincadeira que eles fazem com as palavras, a mobilidade e o poder que dão para elas, que se encaixa com perfeição à voz calma, e ao som contagiante do samba de raiz. É uma ótima sugestão para quem gosta do ritmo e também para aqueles que pouco conhecem!
por Douglas Germano em 27/04/2009 às 14:40:10
Olá Edckson! Passei para lhe deixar um abraço, lhe agradecer. Evidentemente quero comunicar que você passa a constar em nosso "Caderninho de Vergonhas", pois gostar do Moviola não é coisa que se assuma publicamente. Como és muito corajoso, ganhaste também uma consulta grátis com nosso otorrinolaringologista. Abraços meu e do Kiko.
por Aline Sandoval em 18/07/2010 às 15:13:58
Eu adoro o trabalho deles... muito bom mesmo, criatividade, boa música, verdadeiros artistas!